Carta para Konichi-bo

Carta para Konichi-bo

 

Edição 562 - Publicado em 13/Junho/2015 - Página 16

Cenário histórico

No escrito Carta para Konichi-bo, Daishonin encoraja sinceramente uma mãe enlutada. Nesta carta, que transborda de uma carinhosa preocupação e consideração, sentimos a infinita benevolência de Nichiren Daishonin, desejoso por tranquilizar e restaurar o espírito dessa sincera discípula.
Datada de março de 1276, é endereçada à monja leiga Konichi, que vivia na província de Awa (parte da atual região sul de Chiba), onde Daishonin nasceu. Ela era viúva e seu filho Yashiro, que ela criara como um bom rapaz, fora morto dois anos antes de esta carta ser escrita. Ele sofria um grande tormento espiritual pelo fato de ter de obedecer às regras de sua profissão de samurai, que incluía matar vidas humanas. Konichi havia escrito para Daishonin relatando que estava preocupada com o que seria de seu filho na próxima existência. Nichiren Daishonin, então, respondeu a ela com uma profunda benevolência semelhante a um sol de primavera que derrete o gelo sobre a terra.

Frase 1

Com essas emoções, meu coração se enternece até com aqueles com quem eu não teria amizade em circunstâncias normais, só por serem de minha província natal. Imagine, então, a incontida alegria que senti ao receber sua carta! Abri e li ansiosamente, mas então li que a senhora perdeu seu filho Yashiro no ano retrasado, no oitavo dia do sexto mês. Antes de abrir a carta, sentia-me tão feliz, mas, ao ler a triste notícia, desejei não tê-la aberto com tanta pressa. Senti uma angústia tal qual Urashima Taro1 deve ter sentido ao abrir sua caixa. (CEND, v. I, p. 691)

Explanação

A importância da genuína empatia
Neste trecho, Nichiren Daishonin refere-se à carta que recebeu de Konichi informando-lhe que seu filho, Yashiro, havia falecido cerca de dois anos antes, no oitavo dia do sexto mês de 1274. Ao ler essa notícia, ele diz que sentiu instantaneamente um arrependimento por ter aberto a carta (cf. CEND, v. I, p. 691). Podemos sentir a profunda tristeza de Nichiren Daishonin pela morte de seu jovem discípulo.
Conforme podemos notar em muitos de seus escritos, Daishonin sempre orava fervorosamente para que aqueles que lutavam contra a doença sarassem e pudessem ter longa vida e para que todos estivessem seguros e a salvo. Ele se preocupava sinceramente com a saúde e felicidade de todos os seus discípulos. A notícia de que uma preciosa pessoa tinha morrido enchia seu coração de tremenda tristeza e pesar.
É óbvio que Daishonin estava ciente da eternidade da vida por trás do ciclo de nascimento e morte. Contudo, ele sentia a mesma tristeza de seus discípulos que repentinamente perdiam um ente querido, com profunda empatia pela dor deles.
Numa carta de condolências a Nanjo Toki­mitsu e à sua mãe, a monja leiga de Ueno, sobre a inesperada morte de seu irmão mais novo e amado filho Shichiro Goro, Nichiren Daishonin escreveu, ciente de como deviam estar com o coração partido: “Uma vez que a pessoa nasce, necessariamente vai morrer — Todos sabem que isso é um fato, sábios e tolos, personalidades e pessoas humildes, indistintamente. Portanto, não deve se entristecer nem se alarmar com a morte de alguém; sei que assim é e ensinei os outros a agir da mesma forma. No entanto, quando algo assim [a morte de Shichiro Goro] realmente acontece, pergunto-me se não seria um sonho ou fantasia (...). Mal posso acreditar que uma coisa dessas aconteceu, e embora haja muitas coisas que desejo lhe falar, não consigo pensar sequer numa palavra para lhe escrever” (WND, v. 2, p. 887).
Nenhum mestre sentiu uma empatia mais profunda pelo sofrimento das pessoas que Daishonin, nem que tenha buscado de forma mais intensa avançar junto com elas.
Em Carta para Konichi-bo, após expressar seu pesar para Konichi a respeito do falecimento de Yashiro, Nichiren Daishonin relata uma lembrança especial que guarda sobre ele. Suas palavras demonstram uma benevolência que certamente tocou de forma profunda o coração da mãe de luto. Vamos aprender com o espírito de Daishonin, examinando os seguintes trechos: “Seu filho, em especial, me impressionou. Destacava-se dos demais por seu belo porte, e seu ar pensativo não demonstrava qualquer traço de obstinação. Eu o vi pela primeira vez durante uma de minhas explanações sobre o Sutra do Lótus. Como havia muitos desconhecidos dentre os presentes, não ousei falar com ele. No final da explanação, meus ouvintes partiram e seu filho também. Mais tarde, no entanto, ele enviou um mensageiro com o seguinte recado: ‘Sou de um local chamado Amatsu, na província de Awa. Desde criança, admiro muito o senhor por seu coração grandioso. Minha mãe também tem uma grande consideração pelo senhor. Talvez eu esteja falando com demasiada intimidade, mas há um assunto sobre o qual eu gostaria de consultá-lo em segredo. Sei que deveria aguardar até que tivéssemos nos encontrado por diversas vezes e nos conhecêssemos melhor. Mas, como estou a serviço de certo guerreiro, tenho pouco tempo, e o problema é bastante urgente. Por essa razão, mesmo consciente de que estou sendo grosseiro, solicito-lhe que me conceda uma entrevista’” (CEND, v. I, p. 692).
Preocupado, Daishonin providenciou tudo para atendê-lo imediatamente, ouviu a questão de Yashiro, aconselhou e encorajou o jovem. Daishonin relata a respeito desse encontro: “Ele me contou sobre o passado e o futuro em minuciosos detalhes. Então, ele disse: ‘A impermanência é algo próprio deste mundo. Ninguém sabe quando vai morrer. Além do mais, estou comprometido a prestar serviços a um guerreiro e não poderei evitar um desafio ao qual acabo de ser designado. Temo o que me aguarda na próxima existência. Imploro-lhe que me ajude’. Orientei-o, citando passagens do sutra. Ele, então, lamentou: ‘Nada posso fazer por meu falecido pai. Mas se eu morrer antes de minha mãe viúva, eu seria um filho ingrato. Se alguma coisa acontecer comigo, por favor, peça aos seus discípulos que cuidem dela.’” (Ibidem, p. 692).
Daishonin recria o intercâmbio que tiveram com grande vivacidade. Lendo seu detalhado relato, Konichi deve ter percebido uma vez mais quão Daishonin estava apoiando de perto tanto ela como seu filho, o que sem dúvida lhe proporcionou grande tranquilidade e conforto.
Depois de relatar suas lembranças sobre Yashiro, Daishonin novamente se solidariza com Konichi por sua perda: “Ninguém que nasceu como ser humano — seja ele de posição superior ou inferior — está livre de sofrimento e infortúnio. No entanto, os problemas variam de acordo com a época e diferem-se conforme a pessoa. Nesse aspecto, o sofrimento é como a doença: independentemente de que enfermidade a pessoa sofra, à medida que seu estado piora, ela acredita que nenhuma doença poderia ser mais terrível. Nenhum sofrimento pode ser facilmente aliviado — separar-se de seu senhor feudal, separar-se do pai ou da mãe, ou separar-se do marido ou da esposa. (...) Mas o sofrimento de ter perdido o pai, a mãe ou um filho parece apenas intensificar-se à medida que os dias passam. (...) É realmente triste para uma mãe de idade avançada ser precedida na morte pelo filho! (...) Ao imaginar sua dor, minhas lágrimas não param de cair” (Ibidem, p. 692-693).
Não somente neste escrito, mas em outras cartas aos seus discípulos, podemos notar que os incentivos e as orientações de Daishonin sempre levam em consideração as circunstâncias de cada indivíduo e seu estado de espírito.
A situação e as dores das pessoas são diferentes. O verdadeiro incentivo leva isso em conta e é sensível aos sentimentos e ao estado emocional de cada indivíduo.
Em nosso mundo moderno, muitos lamentam a triste diminuição na capacidade das pessoas de sentir empatia, de se colocar no lugar do outro. A indiferença com o sofrimento alheio é generalizada. Agora mais do que nunca precisamos reconstruir nossas relações com os nossos companheiros, seres humanos. A época exige a restauração e a reconstrução dos laços de coração a coração.
Com base nisso, muitas pessoas têm grandes esperanças nas atividades de nossos membros para incentivar e apoiar os outros, agindo como uma importante força motriz para uma mudança positiva. As contribuições sociais dos membros da SGI que protegem e praticam o Budismo de Nichiren Daishonin, um ensinamento do respeito por todos os seres humanos, estão criando uma nova onda de humanismo.

Frase 2

Em todo caso, mesmo que os pais sejam malfeitores, se o filho for bom, os crimes dos pais serão perdoados. Por outro lado, mesmo que o filho seja um malfeitor, se os pais forem pessoas de bem, os crimes do filho serão perdoados. Portanto, mesmo que seu falecido filho, Yashiro, tenha cometido más ações, se a senhora, a mãe que o trouxe à luz, expressar seu sofrimento e orar por ele dia e noite na presença do buda Shakyamuni, como ele poderia não ser salvo? Além do mais, por ele acreditar no Sutra do Lótus, pode ser que seja ele quem conduzirá os próprios pais ao estado de buda. (CEND, v. I, p. 694)

Explanação

Os eternos laços da família
unida pela Lei Mística
Nesta passagem, Nichiren Daishonin declara que tanto Konichi como seu filho Yashiro estão destinados a atingir o estado de buda.
Em outra carta dirigida à monja leiga anos mais tarde, Daishonin escreve: “Que laço cármico seria responsável pela monja leiga Konichi acreditar no Sutra do Lótus? Poderia ser porque seu filho, o falecido Yashiro, que acreditava nele, recomendou que ela fizesse isso? Uma vez que não há dúvida de que a boa sorte obtida por isso frutificará, é certo que você encontrará seu filho e estará junto dele na Terra Pura do Pico da Águia. (...) Tanto mais [certo é o estado de buda para] a honorável Konichi de agora, que pela grande afeição por seu filho tornou-se praticante do Sutra do Lótus! Sem falta, mãe e filho vão para a Terra Pura do Pico da Águia. Nessa ocasião, que alegre reunião será! Que alegria será!” (WND, v. 2, p. 964).
Os laços entre os membros da família que tem ligação com a Lei Mística são eternos pelas três existências — passado, presente e futuro. Mesmo que apenas um membro da família pratique o Budismo de Nichiren Daishonin, o poder da Lei Mística é tal que seu benefício permeará a vida de todos os familiares falecidos e parentes no nível mais profundo com base na eternidade da vida. Com a morte, aqueles que defendem firmemente a Lei Mística estão destinados a atingir o estado de buda — que Nichiren Daishonin descreve como “ir para a Terra Pura do Pico da Águia” — e continuam a exercer uma influência positiva sobre sua família e entes queridos, e os guiará ao estado de buda também.
Nada é mais triste que perder uma pessoa próxima da família ou um ente querido. Um familiar ou ente querido morrer de doença ou num acidente ou uma criança nos preceder na morte são trágicas experiências de partir o coração. Só o tempo pode curar nossa dor. Mas, tal como o buda Shakyamuni ensina a história da mãe enlutada e a semente de mostarda,2 ninguém pode escapar da experiência de perder uma pessoa querida.
Entretanto, o falecimento de um familiar ou de alguém querido tem sempre um profundo significado. E certamente seremos capazes de perceber isso. Chegará o dia em que tal significado será claro para nós. O que importa é com que serenidade conseguiremos superar todos os desafios da vida, observando a tudo da perspectiva do budismo.
Numa carta para a monja leiga Myoichi, que também contém a famosa frase: “O inverno nunca falha em se tornar primavera” (CEND, v. I, p. 560), Daishonin escreve: “Provavelmente, a cada instante do dia e da noite, ele está observando sua esposa e seus filhos através dos espelhos celestiais do Sol e da Lua. Como a senhora e seus filhos são pessoas comuns, não podem vê-lo nem ouvi-lo (...) Porém, jamais duvide de que seu marido está protegendo vocês” (Ibidem, p. 560).
Aqueles que formam um laço com a Lei Mística, sem falta, são protegidos. Se vierem a falecer num acidente, num desastre natural ou vítimas de uma doença, enfim, em todas essas circunstâncias, nada poderá destruir a essência de sua vida (cf. WND, v. 2, p. 135). De um ponto de vista mais profundo da prática da fé na Lei Mística, aqueles que morrem, enquanto se esforçam pelo kosen-rufu, são pessoas que participaram do desafio de transformar o carma da humanidade e cumpriram sua missão nesta vida. Sua morte — ou a “partida para a Terra Pura do Pico da Águia” — é uma preparação para a sua próxima existência. O falecido, que em vida formou laços com a Lei Mística, diz Daishonin, vigia seus entes queridos daquele reino do estado de buda. Em seu tratado Abertura dos Olhos, Nichiren Daishonin escreve sobre o falecido trilhando seu caminho ao Pico da Águia, para que assim possa conduzir sua esposa e filhos ao estado de buda também (cf. CEND, v. I, p. 296). E no presente escrito a Konichi, que estamos estudando, ele cita ainda o falecido Yashiro conduzindo seus pais ao estado de buda (cf. CEND, v. I, p. 694).
Vistos em termos da natureza originalmente inerente ao nascimento e à morte,3 tanto em vida como na morte — ou, como Daishonin se expressa, aqui no mundo saha ou na Terra Pura do Pico da Águia — permaneceremos para sempre como companheiros na luta compartilhada pelo kosen-rufu, membros da família Soka e companheiros de fé. Nossa vida aspirará eternamente, em seu nível mais profundo, a ampla propagação da Lei Mística e uma transformação fundamental do carma da humanidade.
Se continuarmos a nos esforçar baseados na fé na Lei Mística, conquistaremos sem falta uma profunda convicção interior da visão budista sobre a vida e a morte, que ensina a eternidade da vida. Incontáveis membros da SGI têm obtido tal convicção por meio de sua prática. Embora não possam falar sobre isso numa linguagem filosófica rebuscada, eles sabem, baseados na sabedoria de buda inata à vida deles, que todos os que se esforçam unidos pelo kosen-rufu estão ligados por laços que transcendem os limites dessa existência e são capazes de desfrutar elevada condição de vida de “alegria na vida e alegria na morte”. Pelo fato de terem abraçado o Budismo de Nichiren Daishonin, que expõe o princípio da unicidade de vida e morte, eles vivem com infinita confiança e paz de espírito.
Certa vez, Toda Sensei afirmou, com um profundo sentimento, que a vida de uma pessoa que superou os abismos da tristeza sentida pelo falecimento de alguém querido e se aplicou resolutamente à realização dos desejos deste é incomparavelmente nobre, forte e significativa. Sem dúvida, a monja leiga Konichi se tranquilizou com o reconfortante incentivo de Daishonin a respeito de seu filho habitar o mundo do estado de buda e permanecer ligado a ela para sempre. Acima de tudo, saber que tinha o apoio e a compreensão de Nichiren Daishonin deve ter-lhe proporcionado nova determinação para viver com força e coragem.
1. Urashima Taro: Personagem de contos japoneses. Depois de passar três anos desfrutando do conforto no palácio do deus do oceano no fundo do mar, Urashima volta para casa e descobre que não reconhecia qualquer pessoa em sua aldeia. Em sua perplexidade e angústia, ele abre um porta-joias, que ganhara quando estava no palácio do deus do oceano, e sobre o qual ele fora instruído a jamais abrir. Ao abri-lo, uma nuvem de fumaça branca escapa do porta-joias, e seu cabelo fica totalmente branco, e num instante ele fica velho e cheio de rugas, demonstrando que, na realidade, várias centenas de anos se passaram enquanto ele esteve fora, no fundo do mar. 2. O presidente Ikeda conta a história do encontro de Shakyamuni com uma mãe angustiada pelo falecimento de seu filho: “Certa vez, Shakyamuni encontrou uma mãe angustiada com o filho morto nos braços. Quando ela implorou a ele que curasse seu filho [já morto], o Buda disse: ‘Se a senhora for para a cidade e me trouxer um grão de mostarda, farei um remédio para seu filho. Mas a semente deve vir de uma casa na qual jamais ninguém [da família] tenha morrido’. À medida que a mãe andava de casa em casa, percebeu que todas as famílias tinham enfrentado a morte de um ente querido. Ao aceitar a impermanência da vida, a mãe tornou-se discípula de Shakyamuni”. Essa famosa parábola consta na escritura budista Therigatha Atthakatha [Comentário sobre o Therigatha] (TC, ed. 519, nov. 2011). 3. Natureza originalmente inerente ao nascimento e à morte: A verdadeira natureza ou a realidade do nascimento e da morte de todos os seres vivos, como entidades unas à Lei Mística, a Lei fundamental do universo.

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