Como Aqueles que Inicialmente Aspiram ao Caminho Podem Atingir o Estado de Buda por Meio do Sutra do Lótus

Resumo e Cenário Histórico 


O escrito que vamos estudar não informa com clareza a quem foi destinado nem a data de sua confecção. O conteúdo se concentra em refutar o ponto de vista da escola Nembutsu sobre a existência de outro mundo transcendental – Terra Pura – que formava a essência da adoração a Amida. Há também uma breve referência à iluminação das mulheres ensinada no Sutra do Lótus. O conteúdo, portanto, sugere que a carta tenha sido endereçada a uma seguidora de Nichiren Daishonin, que anteriormente teria recitado o Nembutsu (o nome do buda Amida) ou que ainda estava apegada à prática da Terra Pura, com o objetivo de ensinar-lhe os fundamentos da fé no Sutra do Lótus e sua essência, que consiste na recitação do Nam-myoho-renge-kyo.
No trecho aqui apresentado, Daishonin se refere à importância da recitação do daimoku – a fonte da verdadeira vitória.

Frase 1


Quando reverenciamos o Myoho-renge-kyo inerente em nossa própria vida como objeto de devoção [Gohonzon], a natureza de buda dentro de nós é convocada a emergir e é manifestada pelo Nam-myoho-renge-kyo que recitamos. Isto é o que se entende por buda (END, v. VI, p. 230-231).

Explanação


Nesta passagem, Nichiren Daishonin descreve os grandes benefícios da recitação do daimoku cujo som único pode invocar a natureza de buda de todos os seres vivos. Comenta, a princípio, sobre reverenciar “o Myoho-renge-kyo inerente em nossa própria vida como objeto de devoção” (END, v. VI, p. 230). 
Daishonin revelou a Lei Mística inerente à sua própria vida e a evidenciou sob a forma concreta do Gohonzon, o objeto de devoção. Somente quando recitamos Nam-myoho-renge-kyo com base na fé no Gohonzon é que surge a prática para alcançar o estado de buda.
Reverenciamos o Gohonzon concedido à humanidade por Nichiren Daishonin e, tomando-o como um espelho e guia para a nossa vida, acreditamos que possuímos o mesmo estado de vida extremamente nobre de Daishonin dentro de nós e que somos capazes de manifestá-lo. Ao fazer isso, estamos “reverenciando o Myoho-renge-kyo inerente em nossa própria vida como objeto de devoção” (Ibidem).
Ao contrário, se depositamos fé – ou buscamos apoio – em algum ser sobrenatural ou em um buda fora da nossa própria vida, por exemplo, um buda dos ensinamentos provisórios anteriores ao Sutra do Lótus como no caso do Nembutsu, visando alcançar a salvação, não estamos “reverenciando o Myoho-renge-kyo inerente em nossa própria vida como objeto de devoção” (Ibidem). 
O Gohonzon é o claro espelho que nos permite manifestar o Gohonzon de nossa própria vida. Orar com fé no Gohonzon é a chave para manifestar o Gohonzon dentro de nós e ativar o “Myoho-renge-kyo inerente em nossa própria vida” (Ibidem). Se perdermos de vista este ponto importante, nossa prática budista corre o risco de cair num culto subserviente a um ser absoluto fora de nós.
O propósito de nossa prática budista é fazer com que cada um de nós evidencie o “Myoho-renge-kyo inerente em nossa própria vida” (Ibidem) e estabeleça um estado de vida de felicidade eterna e indestrutível.

Frase 2


Para ilustrar, quando um pássaro engaiolado canta, os pássaros que voam no céu são, assim, convidados a se reunir à sua volta, e quando os pássaros que voam no céu se reúnem ao redor dele, o pássaro na gaiola se esforça para sair. Quando recitamos a Lei Mística, nossa natureza de buda convocada, invariavelmente, surge (END, v. VI, p. 231).

Explanação


E, então, Daishonin explica o processo pelo qual este grandioso estado de vida, o estado de buda, se manifesta, utilizando uma metáfora muito acessível – a do pássaro numa gaiola.
O “pássaro engaiolado” representa a natureza de buda que existe em nós, pessoas comuns. A “gaiola” representa um estado no qual o ser permanece acorrentado pela escuridão fundamental ou ignorância, por vários impulsos de ilusão ou desejos mundanos, e por todos os tipos de sofrimento. O trecho “o pássaro engaiolado canta” refere-se às pessoas comuns despertando para a fé na Lei Mística e recitando Nam-myoho-renge-kyo. Os “pássaros que voam no céu”, por sua vez, representam a natureza de buda de todos os seres vivos. Invocamos a nossa natureza de buda, isto é, o Myoho-renge-kyo dentro de nós, com a nossa própria voz, recitando daimoku.
Ao mesmo tempo, o som da nossa recitação do daimoku, na verdade, também evoca a natureza de buda de diversos seres vivos. Isto porque o Myoho-renge-kyo é o nome da natureza de buda de todos os budas, bodisatvas e seres vivos dos dez mundos. Quando recitamos a Lei Mística, portanto, seu poder é tal que pode suscitar a natureza de buda de todos eles. Em outras palavras, nossa voz recitando Nam-myoho-renge-kyo é o poderoso som que desperta e chama a natureza de buda de todos os seres vivos do universo.
Quando os pássaros que voam no céu são convocados pelo pássaro engaiolado e se reúnem em torno dele, o pássaro na gaiola tenta sair, afirma Daishonin. Isto se refere ao momento em que a gaiola da escuridão e do sofrimento desaparece, momento que nos libertamos de todas as amarras da ilusão e podemos voar livremente no “céu da natureza essencial dos fenômenos”1 (WND, v. 2, p. 976), isto é, no reino da iluminação tão vasto e livre como os céus.
A fervorosa oração com base na recitação do daimoku do Nam-myoho-renge-kyo ressoa com a Lei Mística que permeia o universo, envolvendo a própria vida daquele que o recita, e faz emergir o poder de romper nossa própria escuridão fundamental ou ignorância. O ato de recitar daimoku é um profundo drama da comunhão ou interação entre a nossa vida e o universo.
Nichiren Daishonin afirma: “Quando recitamos a Lei Mística, nossa natureza de buda convocada, invariavelmente, surge” (END, v. VI, p. 231). Como podem notar, ele usa a palavra “invariavelmente”. Quando recitamos daimoku, somos sempre capazes de manifestar dentro de nós o ilimitado poder benéfico da Lei Mística. E quanto mais perseveramos em nossa prática budista, com forte fé, mais podemos experimentar este imensurável poder em nossa vida.

Frase 3


A natureza de buda de Brahma e Shakra chamada nos protegerá, e a natureza de buda dos budas e bodisatvas chamada se alegrará. Isto é o que o Buda quis dizer com a seguinte afirmação: “se alguém puder mantê-lo ainda que por pouco tempo, eu certamente me alegrarei, assim como todos os outros budas” (END, v. VI, p. 231).

Explanação


No trecho seguinte, Daishonin afirma que a natureza de buda de divindades celestiais como Brahma e Shakra – os dois principais protetores do budismo – será convocada a surgir e agir para nos proteger, enquanto a natureza de buda de todos os budas e bodisatvas será chamada e se alegrará (END, v. VI, p. 231). Aqui, ele explica os benefícios que obtemos por recitar daimoku de duas perspectivas: a proteção das divindades celestiais e a alegria dos budas e bodisatvas.
Primeiro, Daishonin escreve: “A natureza de buda de Brahma e Shakra chamada nos protegerá” (Ibidem). A proteção das divindades celestiais é uma manifestação da ação da Lei Mística. Ela é ativada com a recitação do Nam-myoho-renge-kyo, que convoca nossa natureza de buda à tona.
O budismo ensina o princípio de “manifestar a natureza de buda interna e receber a proteção externa”. 2 Quando a nossa natureza de buda surge internamente, ela ativa a natureza de buda na vida dos outros, que então se manifesta na forma de proteção externa. A proteção recebida das forças positivas do universo, portanto, depende primeiro de fazermos emergir a nossa natureza de buda. Dito de outra forma, é a nossa determinação na fé que põe essas funções protetoras em ação. Nossa natureza de buda se manifesta no momento em que rompemos nossa escuridão fundamental ou ignorância com base em nossa firme convicção na fé. Assim, em um de seus escritos, Daishonin cita as palavras do grande mestre Miaole da China, “Quanto mais forte a fé, maior a proteção dos deuses”3 (CEND, v. I, p. 642), e comenta: “Enquanto a pessoa mantiver uma forte fé, certamente receberá grande proteção dos deuses” (Ibidem).
Recitar Nam-myoho-renge-kyo com todo o coração é o que ativa as funções protetoras do universo. É a nossa transformação interior – ou seja, é o ato de manifestar a nossa natureza de buda – que impele as funções a agir. Apenas esperar por proteção sem transformar a própria vida não é a maneira correta de orar no Budismo de Nichiren Daishonin.
Nesta passagem, Daishonin também escreve: “A natureza de buda dos budas e bodisatvas chamada se alegrará” (END, v. VI, p. 231). Ele cita um trecho do 11º capítulo do Sutra do Lótus, “Surgimento da Torre de Tesouro”, para comprovar isso: “se alguém puder mantê-lo ainda que por pouco tempo, eu certamente me alegrarei, assim como todos os outros budas” (CEND, v. I, p. 200). O júbilo dos budas e bodisatvas, mencionados por Daishonin, constitui o verdadeiro benefício a ser adquirido por recitar daimoku. Em outras palavras, o vasto e abrangente estado de buda e o benevolente estado de bodisatva – caracterizado pelo desejo de buscar a Lei Mística e transmiti-la a outras pessoas – se manifestam e agem ativa e vibrantemente em nossa vida.
No Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente, Nichiren Daishonin diz: “A grande alegria [é] a que se experimenta quando se compreende pela primeira vez que desde o início é um buda. O Nam-myoho-renge-kyo é a maior de todas as alegrias” (OTT, p. 211-212). Não há alegria que supere esta experiência de nossa natureza de buda surgir, e o mundo do estado de buda pulsar fortemente em nossa vida.
Diante de tantas pressões e exigências do cotidiano, algumas pessoas podem pensar que tal alegria só existe na teoria, mas que nunca serão capazes de experimentá-la na realidade. Porém, os incontáveis membros da SGI desfrutam, de fato, esta alegria na vida real, enquanto se dedicam incansavelmente pela causa do kosen-rufu – o desejo e decreto do Buda –, apesar de suas agendas lotadas e dos inúmeros compromissos.
1. Natureza essencial dos fenômenos (jap. hos­- sh): Natureza fundamental da iluminação: Também conhecida como natureza do Darma. É a natureza imutável inerente a todas as coisas e a todos os fenômenos e é identificada com a própria lei fundamental, a essência da iluminação do Buda, ou a verdade última. 2. Manifestar a natureza de buda interna e receber a proteção externa: “A natureza de buda manifesta-se a partir do interior e traz a proteção externa” é uma frase da obra Anotações sobre Grande Concentração e Discernimento do grande mestre Miaole. “A natureza de buda manifesta-se a partir do interior” indica o poder de manifestar a natureza de buda, ou a verdade, que existe na vida. “Traz a proteção externa” indica as funções que protegem e ajudam aqueles cuja vida está imersa na ilusão. 3. Quanto mais forte a fé, maior a proteção dos deuses: Frase de Anotações sobre Grande Concentração e Discernimento, do grande mestre Miaole.

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